por Cecília Gontijo:
"Como o ritual acontece em várias cidades da Ásia, não sei explicar a razão de especificamente Luang Prabang ter sido eleita o destino dos turistas que querem alimentar monges budistas logo pela manhã"
Todos os dias, monges de vários países budistas da Ásia se levantam às 5h da manhã para iniciar seus rituais de alimentação e rezas. No Laos não é diferente: como em vários dos outros países de mesma crença, os monges começam sua caminhada pelas ruas da cidade logo antes do amanhecer, carregando uma vasilha de alumínio que estendem aos habitantes locais para receber a doação dos alimentos que lhes servirão de café da manhã.
Como o ritual acontece em várias cidades da Ásia, não sei explicar a razão de especificamente Luang Prabang ter sido eleita o destino dos turistas que querem alimentar monges budistas logo pela manhã. Pode ser pela beleza da cidade em si, pela diversidade de lindos produtos do seu mercado ou pelo melhor peixe na brasa do mundo (título dado por mim mesma), vendido nas várias feiras da cidade; a verdade é que, se você está por perto, vale mesmo dar um pulinho aqui.
Participar do ritual de alimentação dos monges, por outro lado, não é exatamente algo de que turistas deveriam se orgulhar. A verdade é que, como boa parte das tradições que sofreram interferência da curiosidade e encantamento de outros povos, também essa perdeu um bocado de sua originalidade e foi, de certa maneira, bastante prejudicada.
Todas as manhãs, dezenas de turistas se levantam nessa bonita cidade do Laos crentes que vão acrescentar uma boa ação ao currículo espiritual. Todos as manhãs, dezenas de mulheres esperam com cestinhas forradas de arroz e quitutes para vender aos preguiçosos visitantes que não se dispuseram a cozinhá-los eles próprios. Estes, como é de esperar, não sabem nada de antemão a respeito do ritual e, enquanto inúmeros monges transitam sérios e calados em frente a eles, todos conversam, riem e não se dão o trabalho de poupar de flashes fortíssimos os olhos recém-amanhecidos. Como se não bastasse isso, sempre tem alguém com menos, digamos, tato, pra cometer absurdos como o do canadense que sacava de dentro da cestinha um punhadinho de arroz, o amassava por vários segundos entre as palmas das mãos como se fosse massa de modelar antes de depositá-lo nas vasilhas dos religiosos. Até a chinesinha ao lado censurá-lo com razão: “cara, eles vão comer isso!”.Como não é de surpreender, corre pelas ruas de Luang Prabang a conversa de que os monges, depois da invasão turística, começaram a ter episódios frequentes de mal-estar causados pela comida oferecida (sobretudo porque as vendedoras de cestinhas, claro, não se preocupam em renová-las a cada dia com comida fresca) e chegaram a ameaçar suspender o ritual para evitar novos incidentes. Como também não é de surpreender, o governo da cidade, preocupado com a possível diminuição de turismo e desaquecimento da economia, retrucou: disse que, se os monges ousassem suspender o ritual, eles não teriam outra alternativa que contratar atores para substituí-los.
Publicado em: BLOG 2008
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