E quando a festa acabar?

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Editorial:

"Preocupado em não passar vergonha nos grandes eventos esportivos, Brasil ignora o mercado emergente de brasileiros"


O ano de 2010 representa uma retomada em muitos aspectos econômicos, embora tenha sido o último do governo Lula e suas peripécias. Assim, a virada de ano 2009 – 2010 foi devotada ao “dinheiro, paz e sucesso”. Mas, na oportunidade, os votos eram realmente uma forma de negar o ano que acabava com lembranças ruins e se motivar para a temporada esperada.

Depois de uma crise global que refletiu diretamente em muitos destinos turísticos, o ciclo seguinte significava bastante trabalho e algum lazer. E quando se fala em lazer, subliminarmente falamos de Turismo. Era esperar. E veio. Segundo a Infraero, os desembarques de passageiros em voos domésticos, de janeiro a novembro de 2010 (61,2 milhões), superaram os 56 milhões registrados em 2009, no mesmo período. Não fossem as constantes dificuldades enfrentadas pelo setor aeroviário e a atrapalhada Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), esse número provavelmente seria maior.

Analisando o trânsito de estrangeiros no Brasil, a preocupação em relação à modernização do atendimento se agrava, uma vez que paira sobre a cabeça desse turista o rótulo de “exigente”. Entretanto, preocupa, pois a mesma postura não é adotada sobre o julgamento doméstico. Então vamos assistindo uma comoção nacional perturbada com o interesse do mundo sobre o país da Copa 2014, o crescimento de 21,3% nos desembarques internacionais e 10,05% no gasto de turistas estrangeiros, entre janeiro e novembro de 2010; uma porcentagem que representa US$ 5.317 bilhões no cofre tupiniquim, de acordo com o Banco Central.

São esses números que têm chamado a atenção. Uma preocupação em não passar vergonha. Lamentavelmente essa “vergonha” não se manifesta na questão do turismo doméstico. Com uma política social estudada por amantes e desafetos, Lula formatou uma nova classe média, com anseios específicos e um bando de empresários apavorados por não corresponder às características dessa demanda emergente. Em 2011, 8,7 milhões de brasileiros das classes C e D pretendem viajar de avião pela primeira vez, segundo o instituto de pesquisa Data Popular. E o setor continua ignorando essa necessária fatia do mercado.

Algumas empresas já tentam adequar seu atendimento e criar novos produtos/serviços para esse público, entretanto ainda falta a sensibilidade ideal. Trata-se de um grupo social que ascendeu à condição de compra, conquistou um considerável poder aquisitivo e mantém parâmetros “televisivos” de consumo. Ou seja, o mercado precisa vender o melhor e apostar seu faturamento em função da quantidade, pois a pirâmide começa a perder sua forma tradicional.

Por essas e outras é que o governo Lula é tão interessante; ele patrocinou o crédito às classes, até então, menos favorecidas e, ao mesmo tempo, foi tão cego. Herdamos uma mórbida atração por peripécias, basta ver a eleição de Tiririca, numa desastrada e desesperada forma de protestar; o reajuste dos salários no legislativo e executivo, que desencadeou outros rombos Brasil afora; ou ainda a escolha do então deputado federal Pedro Novais (PMDB/MA), patrocinado por José Sarney (PMDB/AP), para assumir a pasta do Ministério do Turismo em vias de escancararmos nossos quintais para o mundo através dos grandes eventos esportivos.

Esperamos que essa preocupação em não “pagar mico” contagie a atividade doméstica. Esperamos que o governo Dilma inspire, ao contrário de Pedro Novais que pagou motel com dinheiro público, o tão gritado “orgulho de ser brasileiro”, para além dos muros dos estádios de futebol. Também esperamos que essa preocupação se transforme em modernização da infraestrutura turística, mas que o próprio brasileiro seja visto como alimento dessa máquina depois que a festa acabar.


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