OPINIÃO: Etnocentrismo e Turismo: uma relação insustentável

sábado, 18 de dezembro de 2010

por Paulo Pedro de Freitas Filho:

"Cabe ao turismólogo contribuir para a extinção destes valores tão ultrapassados, porém persistentes"


A História do Brasil é marcada por uma verdadeira “cegueira antropológica”. Os europeus, ao aportarem em terras tupiniquins, desconsideraram a cultura aborígene e deram início a sua subjugação e catequização. Para isso, alegaram que os índios não possuíam alma.

Anos mais tarde, com navios repletos de negros africanos acometidos por escorbuto e banzo, o país viveria outro momento de negação da condição humana. O etnocentrismo e a discutível “superioridade do homem branco” prevaleceria mais uma vez.

É justamente essa ausência de olhar plural (atualmente camuflado através de leis e cotas), capaz de contemplar a multiplicidade das cosmovisões, a responsável pelas desigualdades socioeconômicas da nação. Enquanto uma minoria desfruta o luxo, a maioria da população sobrevive à margem, na miséria – vítimas de um sistema concentrador e excludente.

Diante de tal cenário, cabe ao turismólogo contribuir para a extinção destes valores tão ultrapassados, porém persistentes. Por estar, constantemente, em contato com diferentes culturas, pressupõe-se que a consciência e responsabilidade social deste profissional sejam bastante alicerçadas.

Ele deve promover a ideia de que, por meio da visitação de monumentos históricos e apreciação de manifestações folclóricas, a convivência com o novo perpassa pela satisfação de desejos e emoções ligadas à informação cultural e artística. Além desta busca em aprender e entender o “objeto” da visitação, a atividade deve propiciar experiências participativas, integrando o turista às práticas (fazeres e saberes) do cotidiano das populações autóctones.

Vale ressaltar também que o turismólogo deve alertar os cidadãos a respeito dos impactos da atividade turística na cultura (material e imaterial). A real significação dos atrativos deve ser mantida como forma de perpetuar a história local, pois o turista ético prima pela autenticidade do que vê e vivencia – retornando sempre que puder. E para que isso ocorra, é necessário o envolvimento da comunidade, que precisa conhecer e valorizar o seu patrimônio. E a ferramenta mais eficaz é a educação patrimonial: um processo constante e organizado, focado no patrimônio cultural, promovendo o conhecimento e a valorização da herança cultural, não só do próprio grupo social, mas de outros, também.

Seguindo as medidas acima citadas poderemos combater o etnocentrismo no Turismo, um setor que, por natureza, não deseja a negação da pluralidade do olhar, pois isso significaria renunciar o diálogo. E renunciar o diálogo é desprezar o outro. Por conseguinte, perder o sentido da própria existência.


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