"O viajante nunca está desacompanhado, pois, comprou a sensação de estar acompanhado sempre"
Observa-se a determinação das culturas dominantes, hegemônicas, em se apropriar das manifestações, dos espaços, do legado histórico em seu benefício econômico mais viável, e alienar àqueles que usufruem da atividade. Acotovelar-se nos aeroportos de alta temporada, aguardar por horas na fila de espera no restaurante, ou, até mesmo, encomendar lembranças made in China como sendo locais, não representa a maravilha estampada na folhetaria do turismo de sonhos, mas sim, no turismo de massa (BENI, 2001: 453). Como é o homem o agente acionador do sistema turístico, suas consequências decorrem da subutilização de sua própria vida, e do que acredita ser melhor.
O poder dos media, do alcance global dos meios de comunicação em massa, do alcance dos ecos eletrônicos da informática, revelam novas possibilidades de consumo e esconderijo. Não são mais os homens a navegar na Internet, pois é ela quem agora desbrava nossos caminhos reais, pelas ruas, nos ônibus, nas telas dos aparelhos digitais. Nos equipamentos de realidade virtual, na realidade aumentada, na realidade cada vez mais real. Esse é o poder que leva a se esconder da solidão justamente onde ela mais se manifesta, em frente às telas do computador, porém, onde nunca se estará sozinho fazendo parte da aldeia global. Essa é a ideia que faz dos fones de ouvido dois ingressos para a subjetividade, onde se ignora e ao mesmo tempo se expõe, onde se foge, mas se liberta, onde se está sozinho, mas sempre acompanhado.
O viajante nunca está desacompanhado, pois, comprou a sensação de estar acompanhado sempre. Perceptível se torna essa relação dialética quando analisamos os acontecimentos turísticos como as festas nas “casas de praia” de Porto Seguro – BA, por exemplo, onde o espetáculo entre uma e outra banda de “axé music” são as rodas de capoeira. Na areia, os tatuadores com hena asiática, vendedores de óculos de sol chineses, se misturam entre os turistas de todos os lugares. Nos cenários, no entanto, nas paisagens, a ilustração de uma cidade que ali não coexiste, e sim, se constrói diariamente dependendo dos desejos dos turistas. Porém, sempre há algo que esteve antes ilusoriamente ilustrado no programa de viagem.
O consumidor é levado a agir como se fosse proprietário dos acontecimentos, e, surpreendentemente, aqueles que realmente são os verdadeiros donos, passam a meros espectadores ou prestadores de serviço. Desta forma, autóctones encurralam-se sem qualquer poder de reação frente ao poder hegemônico e desestabilizador das culturas subalternas exercido vetorialmente pelo turismo, mas, evidentemente, alimentado pelo processo de globalização. Não há, nas cidades absorvidas pelo poder do capital, maneiras de suportar a grande teia de relações que a invasão causa, desestruturando, ignorando, as culturas subalternas existentes, porém, por outro lado, além dos aspectos negativos que a atividade impõe, há os impactos econômicos que sustentam as comunidades locais em uma relação de dependência predatória, onde um não poderia viver sem o outro, ou seja, o turismo necessita da mão-de-obra que por sua vez aceita servi-lo para prover sua subsistência.
Este é o contexto de um turismo pós-moderno, banhado na massificação da pluralidade, extinguindo qualquer espécie de reação que a diversidade possa esboçar. Beni (2001, p.95) fala sobre a situação alertando sobre as facetas que podem ser encontradas, alertando sobre o poder de transformação que a atividade turística representa, pois acredita, que:
[...] vem assumindo uma destacada dinâmica, em face a mídia globalizada que, se de um lado, populariza o acesso a diferenciais culturais de áreas diversas do mundo, de outro, tende a transmitir novos valores homogeneizados da cultura dominante ocidental, provocando conflitos e o gradual desaparecimento de identidades culturais.
Pois, desta forma é que encontra, no turismo, o vetor adequado para a proliferação de uma atividade que não respeita a historicidade, as características de seu legado, nem mesmo as especificidades dos povos e seus costumes (FERREIRA, 2005: 38), denominando a atividade como Turismo Predatório, o que assemelha-se muito com o Turismo de Massa, amplamente discutido por autores do Turismo. Nessa realidade, de fato, as identidades não são construídas com base na historicidade do indivíduo, sua espacialidade, e senso de pertencimento, mas fundados nos interesses econômicos do poder dominante. Este é o prestador de serviços da pós-modernidade, o atendente que age como agente da alienação.
Referência:
BENI, Mário Carlos. Análise estrutural do turismo. São Paulo: SENAC, 2001.
FERREIRA, Maria Nazareth (org.). Identidade cultural e turismo emancipador. São Paulo: CELACC: ECA/USP, 2005.
Idem . Cultura subalterna e neoliberalismo: a encruzilhada da América Latina. São Paulo: CELACC: ECA/USP, 1997.
Idem. Alternativas metodológicas para a produção científica. São Paulo: CELACC: ECA/USP, 2006.
*Artigo Científico: A relação dialética na construção cultural do atendente turístico. São Paulo: CELLAC/USP, 2009.
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