por Vladimir Platonow:
"Para o pesquisador Paulo César Montagner, a realização de grandes eventos esportivos não é garantia de desenvolvimento econômico e turístico sustentável. Pode ser só uma bolha turística"
Sem planejamento adequado por parte do Poder Público e participação popular nas decisões, eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas podem se transformar em bolhas turísticas, que geram forte demanda imediata, seguida por oferta ociosa posterior e sem ganhos sociais.
A avaliação é do coordenador do Grupo de Estudos Avançados em Esportes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Paulo César Montagner. Ele citou os Jogos Pan-Americanos de 2007 como um exemplo a não ser seguido, pois as promessas de legados sociais para os bilhões de reais investidos não se confirmaram. “O desafio é como essas praças esportivas vão se transformar em centros de desenvolvimento do esporte no Brasil. No Pan-Americano, os dados atuais mostram que as praças não representam um legado positivo, porque não existem grandes projetos lá.”
Montagner destacou que, em outros países, principalmente os ricos, o investimento na estrutura dos eventos fica apoiado na iniciativa privada, o que não ocorre no Brasil, onde o encargo acaba nas mãos do Estado. “Em países como o Brasil, normalmente é o Estado que financia esses sistemas. A iniciativa privada só destina recursos para a hora do parabéns, na apresentação da festa. Mas não para a infraestrutura preparatória.”
O professor da Unicamp alertou que a realização de eventos internacionais que promovam a imagem do país no exterior, isoladamente, não é garantia de que haverá aumento sustentado do fluxo turístico futuro. O ganho, alerta Montagner, pode ser apenas imediato. Como exemplos positivos a seguir, ele citou as cidades de Barcelona, na Espanha, sede das Olimpíadas de 1992, e de Seul, na Coreia do Sul, sede das Olimpíadas de 1988, que conseguiram traduzir em ganhos urbanísticos e sociais permanentes os investimentos nos jogos.
Montagner considerou que ainda é uma incógnita se a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 trarão ganhos reais para o Brasil. “Não é automático, o país tem que ter uma política para isso. Eventos dessa natureza não têm esse poder mágico, como querem nos fazer acreditar, de que só isso é suficiente. É possível que se gere grandes expectativas nas pessoas, mas é preciso um projeto de políticas públicas. Não me parece que isso está acontecendo no Brasil.”
Ele citou o caso da atleta Daiane dos Santos, que despertou, com seu sucesso, a vontade de milhares de crianças de praticar ginástica. Elas, no entanto, não tiveram estrutura preparada para recebê-las. “As crianças não encontraram a oferta de ginástica para se desenvolver. Não adianta fazermos uma olimpíada e falar de um legado, se não se construir estrutura nas escolas, nas praças, nos clubes para que as crianças se desenvolvam. Isso deve estar articulado a um projeto de acessibilidade ao esporte para todas as pessoas interessadas".
Agência Brasil
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