
"[...] percebi a realidade daquelas crianças quando, olhando para todos os desenhos, observei caretinhas tristes"
Sinto-me obrigada a repassar tal percepção, que me permite hoje fazer relatos em primeira pessoa, e deixo a impessoalidade característica do Turismo na gaveta.
Entre tantas e irrelatáveis experiências boas que o Turismo Pedagógico nos traz, tem vezes esbarramos com sensações e histórias espantosas, que necessitam uma certa preparação pra não ficarmos de mal com o mundo.
Ter contato com centenas de pessoas por dia é o que instiga nossas ações. Entre tantos, algumas dessas “peças fundamentais” nos permitem que as conheçamos. Assim, percebemos suas histórias, um pouco de suas experiências, uma leve dose da sua visão sobre a vida. Uma prova inconteste de que não há receita pronta, não existem dias iguais e muito menos um padrão ideal de atendimento.
Muitas vezes, essas histórias roubam a cena de nossa reflexão sobre um dia de trabalho, desencadeando introspecção acerca dos aspectos sociais em diferentes realidades.
Um episódio peculiar tomou conta da minha sensibilidade e irracionalidade em um empreendimento rural que trabalho periodicamente, com foco em educação alimentar. Certo dia estava atendendo crianças de uma cidade pequena do interior paulista; eram crianças com um comportamento difícil e socialmente vulneráveis, que em pouco tempo sugaram todas as nossas energias, deixando aquele passeio desgastante.
Nesse empreendimento receptivo, em um dos vários momentos do roteiro, as crianças têm um contato diferente com os vegetais, brincando de montar desenhos com tomates, pimentões, alfaces e pepinos. Cada qual em seu prato, em todos os passeios notávamos sempre desenhos criativos, alegres; o mais representado eram as caretinhas sorridentes, com olhos feitos de tomatinhos pequenos e a boca com fatias de pimentão.
Entretanto, percebi a realidade daquelas crianças quando, olhando para todos os desenhos, observei caretinhas tristes, muitas delas sem sorriso, ou ainda com a fatia de pimentão curvada para baixo, em vez de colocada pra cima, demonstrando um sorriso.
Com o passar do dia, e já com certa intimidade desenvolvida, elas espontaneamente foram contando suas histórias, como casos de violências das mais diversas formas. Crianças que não necessitavam apenas de uma vivência rural, e sim de um pouco de atenção… amor.
Entretanto, não foi uma experiência ruim. Infelizmente, em muitas ocasiões a reflexão sobre aquilo que a criança, em especial esta vivendo, é tardia. Na correria de um evento pedagógico, ou de qualquer outra profissão com contato instantâneo, os detalhes passam desapercebidos e, descobrimos depois, era possível se doar mais.
Apenas um pouco mais de feeling nas nossas ações cotidianas já nos proporcionaria um conforto melhor entre nossas atitudes. O ambiente de cada personagem de histórias assim não mudará apenas com um breve carinho, ou com nossas boas intenções, mas temos em jogo uma valiosa oportunidade que o Turismo oferece: o sorriso no rosto de gente que raramente tem motivos para isso.
Andiara Druzian (andidruzian@hotmail.com) é formada em Gestão Ambiental, especialista em Educação Ambiental pela UNICAMP, Guia de Turismo de Excursão Nacional e monitora cultural da Estância Turística de Salto.
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